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| Video do Vice Prefeito divulgado no Instaram https://www.instagram.com/reel/DavpB--tuwY/?igsh=MXJwdjF6dzU3cTJoOA== |
O que exatamente decreta um decreto de inverno?
Que proteção social é essa que tem data para começar e data para terminar, publicada no Diário Oficial, como se a desproteção obedecesse ao calendário e hibernasse durante a primavera?
Todos os anos, quando a cidade de São Paulo aciona a Operação Baixas Temperaturas, faz uma confissão. Talvez sem perceber. Talvez percebendo perfeitamente. A Prefeitura demonstra que sabe onde estão as pessoas em situação de rua, sabe do que precisam e sabe como alcançá-las.
Se sabe durante o inverno, sabe durante o ano inteiro.
A diferença é que escolhe protegê-las por estação.
Nada disso é novo. E é justamente por não ser novo que assusta.
São Paulo já viveu esse filme. No fim do século XIX e no começo do século XX, a cidade que desejava parecer moderna combateu os cortiços a golpes de códigos sanitários. Demoliu a moradia dos pobres em nome da higiene e empurrou seus habitantes para longe dos olhos da cidade. Quase sempre havia um médico assinando o laudo e um discurso de cuidado justificando a picareta.
O higienismo daquela época pretendia ensinar o pobre a viver. O de agora parece querer ensiná-lo a desaparecer.
Mudaram os instrumentos, mas a lógica permanece. O laudo sanitário deu lugar ao protocolo de zeladoria. O cortiço foi substituído pela barraca na praça. A picareta, muitas vezes, virou jato d’água.
A gramática, porém, continua a mesma. É uma ação de força apresentada como ação de cuidado. É executada sobre quem não pode recusá-la e justificada como se fosse para o bem de quem a sofre.
O vocabulário acompanha essa lógica.
Quando o poder público escolhe uma palavra doce para nomear uma ação dura, essa palavra deve ser examinada com cuidado. Ela é a primeira peça do inquérito.
São Paulo construiu, em 2026, um dicionário próprio.
Zeladoria é a operação em que o zelo se dirige à calçada, quase nunca à pessoa que dorme nela.
Requalificação é o nome técnico dado ao fechamento. Quando a Prefeitura anunciou o chamado “reordenamento” de 2,9 mil vagas de acolhimento, atingindo centros de acolhida, hotéis sociais e outros serviços, ninguém estaria fechando coisa alguma. Tudo estaria apenas sendo “requalificado”. Foi preciso que o Judiciário suspendesse a medida para devolver à palavra “fechamento” o seu significado.
Reordenamento é retirar pessoas acolhidas de seus territórios e de seus vínculos, alegando que a mudança acontece em defesa desses mesmos territórios e vínculos.
Abordagem humanizada é a abordagem realizada na presença de tropas. E o adjetivo “humanizada” parece crescer na mesma proporção do número de guarnições que acompanham a equipe social.
Há algo de profundamente orwelliano nesse vocabulário.
Em 1984, George Orwell imaginou a novilíngua, uma linguagem construída pelo poder não para explicar melhor a realidade, mas para diminuir as possibilidades de compreendê-la. Algumas palavras desapareciam. Outras eram esvaziadas ou passavam a significar quase o contrário do que deveriam significar. O objetivo não era apenas controlar o que as pessoas diziam, mas estreitar aquilo que conseguiam pensar.
A novilíngua não precisa convencer ninguém de que a violência deixou de existir. Basta tornar mais difícil chamá-la de violência.
É isso que acontece quando o fechamento se transforma em requalificação, a remoção recebe o nome de zeladoria e uma operação cercada por forças policiais passa a ser apresentada como abordagem humanizada.
A palavra deixa de descrever o que o Estado faz. Passa a encobrir o que o Estado faz e ainda oferece à ação uma aparência de virtude.
O exemplo mais recente veio do Distrito Federal.
Em julho de 2026, foi sancionada a Lei nº 7.923, que instituiu a Política Distrital de Acolhimento Humanizado e Atenção Integral à População em Situação de Rua. Entre suas disposições aparece uma expressão que parece ter saído diretamente de um dicionário de novilíngua administrativa: “internação humanizada, de caráter involuntário”.
A lei estabelece que essa internação deve ocorrer apenas como medida terapêutica de última instância, por prazo determinado, diante de risco iminente à vida da própria pessoa ou de terceiros, mediante avaliação médica e comunicação aos órgãos de fiscalização.
Essas condições precisam ser registradas. Mas não eliminam a contradição que existe no nome escolhido para a medida.
Retira-se da pessoa a possibilidade de decidir sobre a própria internação, mas preserva-se o adjetivo “humanizada”. A coerção não desaparece. Apenas recebe uma palavra capaz de torná-la mais aceitável.
Não se trata de afirmar que toda internação involuntária seja ilegítima em qualquer situação. A legislação sanitária já prevê hipóteses excepcionais, acompanhadas de requisitos e responsabilidades médicas. O que deve ser questionado é a transformação de uma medida extrema, fundada justamente na retirada do consentimento, em política dirigida especificamente à população em situação de rua e apresentada ao público sob uma embalagem verbal de cuidado.
Esse é o trabalho da novilíngua administrativa. Ela não modifica apenas o nome das coisas. Modifica o julgamento que fazemos delas antes mesmo que possamos examiná-las.
Não é apenas um jogo de palavras.
A palavra doce é justamente o que permite que a ação dura continue sem produzir o custo político que deveria produzir.
Mas o centro da questão está em outro lugar. Para enxergá-lo, é preciso abandonar um velho lugar-comum.
Há décadas se repete que a intersetorialidade não funciona no Brasil. Diz-se que as políticas públicas não conversam, que cada secretaria trabalha isolada em seu próprio território e que ninguém consegue coordenar ações conjuntas.
A cidade de São Paulo desmente esse diagnóstico todos os dias, geralmente antes de o sol nascer.
Quando o objetivo é realizar uma operação sobre uma cena de uso ou sobre um acampamento de pessoas em situação de rua, a intersetorialidade municipal funciona com a precisão de um relógio.
Subprefeitura, limpeza urbana, Guarda Civil Metropolitana, Polícia Militar, Polícia Civil e CET conseguem atuar em perfeita sincronia. Saúde e assistência social são chamadas para completar o quadro e, muitas vezes, emprestar legitimidade ao conjunto.
Há comando, horário definido, caminhões, agentes mobilizados, cronograma e recursos garantidos. Ninguém diz que o assunto pertence a outro órgão. Ninguém empurra a responsabilidade para a secretaria ao lado.
Agora basta inverter a finalidade da operação.
Quando o centro da articulação deveria ser a proteção, a máquina começa a falhar.
Assistência social, saúde, habitação, trabalho e renda deveriam sentar-se à mesma mesa, com o mesmo comando integrado, a mesma capacidade de mobilização, um cronograma comum e recursos garantidos. O objetivo deveria ser retirar alguém da rua de verdade, não apenas retirá-lo de determinado lugar.
Mas é justamente nesse momento que tudo emperra.
A vaga de acolhimento aparece sem a vaga para tratamento. O tratamento surge sem qualquer perspectiva de moradia. A moradia, quando existe, não vem acompanhada de trabalho e renda.
A pessoa permanece girando no centro desse circuito, passando por portas que não se comunicam, enquanto cada órgão descobre uma maneira de concluir que o caso pertence ao outro.
Dou a esse fenômeno o nome de intersetorialidade às avessas.
É a plena capacidade de articulação do Estado mobilizada quando a finalidade é administrar a pobreza pela força e sistematicamente indisponível quando a finalidade é superar a pobreza.
Essa constatação desmonta a desculpa de sempre. A fragmentação das políticas sociais não é apenas uma fatalidade técnica ou uma limitação gerencial. Ela também é uma decisão política apresentada como problema administrativo.
O Estado que consegue sincronizar cinco corporações para dispersar dez pessoas às cinco da manhã não pode alegar, às nove, que não consegue reunir três secretarias para protegê-las.
Também é preciso fazer um registro importante. Essa não é uma política da assistência social. É uma política de governo.
Ela atravessa secretarias, subprefeituras e gabinetes. Muitas vezes, atropela a própria pasta da assistência, que fica comprimida entre duas forças.
De um lado, estão as normas do Sistema Único de Assistência Social, que determinam a proteção e a defesa de direitos. De outro, estão as diretrizes de governo, que convocam seus trabalhadores e serviços a compor operações concebidas a partir de outra lógica.
A assistência resiste quando pode. Em outras ocasiões, apenas assiste ao que não consegue impedir.
O higienismo, ontem como hoje, nunca foi obra de uma única secretaria. É sempre obra de um consórcio.
Os números ajudam a completar o retrato.
O dado oficial da população em situação de rua na capital continua sendo o Censo Municipal de 2021. Naquele levantamento foram identificadas 31.884 pessoas, sendo 19.209 dormindo em logradouros públicos.
É esse o número que a Prefeitura de São Paulo ainda apresenta em suas páginas oficiais em pleno ano de 2026. Um retrato congelado há cinco anos.
Enquanto isso, em maio de 2026, o Cadastro Único já reunia cerca de 159 mil registros de pessoas em situação de rua no estado de São Paulo. São levantamentos de natureza, abrangência e metodologia diferentes. Um censo municipal não pode ser comparado diretamente a um cadastro administrativo estadual.
Ainda assim, a distância entre os números evidencia o tamanho da mudança ocorrida desde 2021 e torna insustentável governar a maior cidade do país com base em uma fotografia tão antiga.
Há ainda um fato que agrava essa situação.
Um novo censo da população em situação de rua foi realizado em São Paulo neste ano de 2026. A coleta foi feita, mas seus resultados ainda não chegaram ao debate público.
A própria Prefeitura informou que, depois da coleta, seriam produzidos relatórios preliminares e completos, com a análise dos dados, e que o processo terminaria com a divulgação dos resultados à SMADS, ao Comitê PopRua e à imprensa.
Essa divulgação ainda não aconteceu.
Seria apenas uma questão técnica? Haveria alguma dificuldade metodológica que ainda não foi esclarecida? Ou a não divulgação dos resultados teria alguma relação com o calendário eleitoral que atravessa o período entre a realização do levantamento e a sua apresentação à sociedade?
É uma pergunta que a Prefeitura precisa responder.
As metodologias dos censos anteriores sempre provocaram questionamentos legítimos. Quem é contado? Como é contado? Em qual noite? Em quais territórios? Quais pessoas ficam de fora?
Essas discussões fazem parte de qualquer levantamento dessa complexidade. Mas o censo de 2026 ainda não pode ser plenamente debatido, porque debater exige conhecer.
Enquanto os novos resultados não são publicados, prolonga-se artificialmente a vida de um diagnóstico que já nasceu em outra realidade.
Um levantamento realizado e ainda não divulgado não representa apenas uma informação que falta. Representa uma informação que permanece sob o controle exclusivo do poder público, enquanto toda a sociedade continua obrigada a discutir a política com números de cinco anos atrás.
Ao mesmo tempo, a gestão reivindica uma rede de quase 30 mil vagas e tenta “reordenar” 2,9 mil delas.
Então chega maio e a cidade decreta o inverno.
Tendas, vagas emergenciais, cobertores e plantões são mobilizados como se o frio fosse um acontecimento imprevisível. Como se as mesmas pessoas não estivessem nos mesmos lugares durante o mês de março, quando a cidade lhes enviava, no lugar de um cobertor, o caminhão da zeladoria.
Aldaíza Sposati, ao fazer o balanço de trinta anos de seguridade social no Brasil, mostrou como a proteção foi sendo convertida em mercadoria, acessível conforme a posição de quem a reivindica.
A versão paulistana desse descaminho é ainda mais crua.
Para quem vive nas ruas, a proteção tornou-se uma variável climática.
Ela aparece quando faz frio, porque o frio mata diante das câmeras. Depois é reduzida quando o calor retorna, porque o calor mata devagar, sem a mesma urgência e quase sempre sem imagem.
Proteção que depende do termômetro não é política pública. É gestão da paisagem.
Uma cidade que só consegue ser intersetorial para remover o pobre da vista, mas nunca para removê-lo da pobreza, não tem apenas um problema de gestão.
Tem um projeto.
A pergunta final deve ser dirigida a quem tem a obrigação de respondê-la.
Não ao morador da Praça da Sé, que já respondeu a todas as perguntas que a cidade lhe fez, inclusive aquelas formuladas com jatos d’água.
A pergunta é para o governo municipal e para todas as suas secretarias, tão competentes quando decidem agir em conjunto.
Quando a Operação Baixas Temperaturas for desmontada, para onde irá toda a intersetorialidade que foi mobilizada para montá-la?
Se o governo souber responder, terá confessado.
Se não souber, também.
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